O CORPO
de Oscar Portela
a Miro Moreira.
Quando a luz do dia corre até a noite e a casa jaz
Desabitada entre as ruínas. Quando o deserto cresce
e sangra o coração sobre as dunas
Quando o cactus floresce. Quando a erma inabitude
Se expande como tumor na axila
E quando a intempérie faz gemer pinheiros estes olhos
vazios e
Extraviados se encarnam no olhar que dá vida.
São os Deuses que voltam à terra
Ou que nunca se hão ido.
Ignorantes de si e obscurecidos ao olhar mortal.
Hão se extraviado
Mais despidos que a alvorada amanheceram
Entre espelhos e luzes prometidas.
Heis aqui o Asilo que buscava. A fé em um mundo
Que encarnado vibra com a paixão do meio-dia.
Somente creio nos Deuses da dança.
Essa é a casa que hei buscado sempre. A perfeição.
A perfeição que ignora a fala do mortal e de seus
signos.
Entre teus músculos nasço novamente.
E na entrega. A mútua entrega consentida sempre.
O olhar se enche de ousadias que não compreenderia
O coração do homem.
A dor disse passa mas a eternidade requer
O gozo que se rende ante o tempo
E volta eternamente ao ser.
Indefinidamente.
Miro-te e sei que estou aqui. Esta é minha casa.
Não existe gênio algum da raça que na arte converterá
Tua beleza. A torção dos músculos.
A exata quadratura dos ângulos
Que baixam desde a frente até a cintura
E daqui até o ventre torneado
Sempre abaixo um tórax de medidas augustas
E linhas algorítmicas.
Mais abaixo o poente que é aurora.
As pernas torneadas que Praxísteles intentou
Inutilmente e entre sonhos tornear
Em seus bronzes vespertinos.
Ninguém pode alcançar um Deus
Ele nos alcança
Com sua beleza e muda com as áureas
Medidas da esfinge carnal com que se investe
O ser para dizer e o dizer para “ser” outros.
Dignos de Eros que nos protege sempre.
Já não há invernos para mim. Já não há derivas.
Mas tenho a certeza de que apenas
Uma carícia tua poderia destruir-me.
Oscar Portela
Corrientes - Argentina
27 de junho de 2007
traducción de Vera Luz Laporta
